A propaganda é um gênero textual muito presente na vida da sociedade e que se divide em diferentes formas. A televisão, o rádio, a revista, o jornal, o out-door e uma infinidade de outros suportes de textos fazem com que este gênero esteja cada vez mais presente na nossa vida.
Afirmação
– É necessário colocar em análise as afirmações (leia-se: slogan) que o
discurso publicitário geralmente faz sobre o produto do ponto de vista do
real. Porém, como todo produto é vendido e anunciado a partir de um ponto
de vista, as afirmações acerca dos produtos informam verdades que partem
da ótica de seus produtores, seus patrocinadores. Quando nos deparamos com
o anúncio “Rápido Araguaia, transporte levado à sério”, essa verdade pode
não ser necessariamente a do passageiro que viaja todos os dias em ônibus
lotados. Enunciam a verdade da empresa e daqueles que querem oferecer essa
frase enquanto faceta de uma realidade. Trata-se de uma verdade carregada
de ideologia, entendendo a ideologia como o escamotear da realidade.
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| Propaganda da Skol explora o erotismo, a inversão do real e estereótipos femininos |
Repetição
– É importante analisar o papel da repetição na constituição do discurso
publicitário. A repetição pode ser da marca, da imagem total do produto, como
forma de evidenciá-lo, ou do tom imperativo (tipo “Compre batom! Compre
batom! Compre batom!”). O objetivo é puro e simplesmente o de fixar na
mente do consumidor a imagem e o nome do produto. Essa ideia da repetição
vem de longa data e, não podemos dizer ao certo, mas nos faz pensar que
segue a máxima daquele marqueteiro de Adolf Hitler (Paul Joseph Goebbels) que dizia que a repetição
é capaz de fazer até a mentira se sobrepor à verdade. Os
produtos não são mentiras, mas poderiam ser esquecidos se não tivessem
seus nomes tão massificados em nossas mentes.
Recriação da
realidade – Podemos verificar que as propagandas muitas vezes nos
oferecem uma outra faceta do real, escamoteando uma determinada verdade e
sobrepondo o ideológico a uma determinada realidade. É o caso, como já
disse acima, de expressões do tipo: “Rápido Araguaia: transporte levado a
sério” (Esse slogan, aliás, encaixa-se na inversão da realidade, se
pensamos no verdadeiro tratamento dispensado aos usuários).
Inversão da
realidade – A inversão da realidade era muito recorrente nas campanhas
de cigarro, agora banidas da televisão, das revistas e dos outdoors.
Hollywood, por exemplo, usava muito a imagem do esporte. Na atualidade, a
inversão do real está de certo modo associada ao erotismo, na composição
do discurso das campanhas de cerveja e demais bebidas de teor alcoólico. Afinal
de contas, as mulheres e homens “sarados” e viris são potencialmente
contrários ao que as campanhas afirmam.
Invenção da
liberdade – Esse é um tipo de discurso muito comum nas publicidades de
telefonia, sobretudo a móvel. Invenção da liberdade, confunde-se com
invenção do real. Mas chamo de invenção da liberdade principalmente
aquelas campanhas que exploram imagens bucólicas (paisagens naturais)
associadas ao produto. A empresa TIM trabalha com o slogan “viver sem
fronteiras”, isso é inventar o real, mas também inventar a liberdade. A
Claro também segue nessa mesma direção, com aquelas espécies de glóbulos
vermelhos espalhando-se gradualmente em diferentes direções.
Uso de
estereótipos – os estereótipos (configuração do tipo) tendem a criar
no público uma sensação contraditória. A ideia é criar uma aparência de
causalidade na cabeça do receptor (leitor, ouvinte ou expectador). A
campanha publicitária, por exemplo, usa a imagem de uma mulher de cabelos
belos, alongados, de cor atrativa, e a mostra associada ao produto para
causar a ilusão de que a causa daqueles cabelos (consequência) seja o
produto apresentado naquela ocasião. É por isso que normalmente aparecem
lábios carnudos para vender batom, dentição grande e bem definida para
vender cremes dentais e outros produtos correlatos, mulheres macérrimas
para vender dietéticos e emagrecedores etc.
Geração de
inimigos: no caso da geração de inimigos, o discurso publicitário
procura ressaltar a existência de algum agente prejudicial que precisa ser
combatido exclusivamente pelo produto que a campanha publicitária oferece.
O inimigo pode ser algo real e natural, como uma dor de cabeça, uma cárie,
uma provável corrosão no motor do carro. Pode também ser elaborado
socialmente, como no caso do pavor que as mulheres nutrem em relação às
medidas a mais, em contraposição aos ideais de beleza. Por essa razão os
emagrecedores são vendidos como verdadeiros combatentes de um inimigo
perigoso: a gordura.
Recorrência
ao erotismo: O erotismo liga o produto à esfera da sexualidade.
Bebe-se cerveja como se estivesse numa relação sexual. Por essa razão é
que as mulheres que mais povoam o imaginário masculino são tão disputadas
pelas campanhas de bebidas. Há explorações aparentemente gratuitas. É o
caso de uma mulher ou de um homem nu para apresentar um determinado
produto. Um outro aspecto do erotismo é vender a imagem da virilidade ou
da sedução condicionada ao uso de uma determinada mercadoria. É o caso das
campanhas do desodorante Axé.
Apelo à
autoridade: Nas peças publicitárias, é muito comum seus autores
recorrerem a profissionais que possuem uma relação de autoridade com o
produto anunciado. É o caso, por exemplo, das campanhas de produtos
ligados à higiene bucal, as quais costumam trazer a imagem de dentistas
recomendando esta ou aquela marca de creme dental, escova ou enxaguante.
Quando o médico Dráuzio Varela, aquele que aparece frequentemente nos
programas globais, é convidado a apresentar uma determinada marca de
remédio, fica patenteado o apelo à autoridade. O mesmo pode ser dito de
uma diarista que apresenta um produto de limpeza, ou um mecânico a
apresentar uma peça de carro, um motor ou um tipo de óleo lubrificante.
Mas é importante salientar que o apelo à autoridade nem sempre será um
verdadeiro “apelo à autoridade”. Em certos casos, pode não ir além de um
mero joguete de cena. O que quero dizer com isso é que muitas propagandas
falseiam a imagem da autoridade realizando algo que podemos chamar de
“configuração do tipo”. Você deve concordar que nos bastaria um jaleco
branco para criar um dentista ou um médico na propaganda. Com um avental e
um lenço criamos uma diarista. Da mesma forma, com um macacão, uma
ferramenta e uma estopa suja de graxa, é possível fazer um mecânico. Entretanto,
por mais que saibamos que o apelo à autoridade pode não passar de mera
invencionice, isso não nos autoriza a descredenciá-la como tal. Não
podemos afirmar que se trata da “configuração do tipo”, posto que a ideia
dos anunciantes é a de criar uma ilusão de autoridade.
Apelo à
celebridade: O apelo à celebridade talvez seja a estratégia mais comum
e muito provavelmente a que mais garanta o sucesso do produto anunciado,
já que famosos de diversos segmentos, por mais que representem um alto
custo para as campanhas publicitárias, continuam sendo requisitados para
divulgar mercadorias que vão de uma simples chinela a mais cara
mercadoria. Nas campanhas que trabalham com o apelo à celebridade é comum
a presença daquelas figuras que se encontram na chamada “crista da onda”.
É por isso que hoje é praticamente impossível atravessarmos um intervalo
comercial sem nos depararmos com a cara do jogador Neymar a divulgar
produtos que vão de A a Z, inclusive de empresas que são diretamente
concorrentes.
Personificação:
Na linha das figuras de linguagem, a personificação é um recurso muito
comum na publicidade e acontece para atender a diferentes propósitos. Às
vezes para dar um tom mais alegre, mais animado, mais bem humorado, ao
discurso, em atendimento ao seu público específico, como no caso das
vaquinhas das propagandas do chocolate Toddy, cujo produto é mais ligado
ao público infantil. Noutras ocasiões para criar uma relação de
proximidade entre o produto, ou empresa, ao seu consumidor, ou cliente. É
o caso de slogans do tipo “o banco que pensa em você”, ou “o carro
inteligente”. O banco é uma instituição jurídica que é humanizada na
afirmação através da palavra “pensa”, já que o pensamento é uma faculdade
exclusivamente humana. O carro também é humanizado a partir da palavra
“inteligente”, já que a comparação é feita no território do homem.
Metonímia:
A metonímia é também uma figura de linguagem. É a que mais aparece nas
propagandas, já que nenhuma empresa quer vender o produto, mas sim a marca
deste produto. A Coca-Cola, por exemplo, não tem nenhum interesse de
anunciar refrigerante, porque se assim o fizesse, estaria contribuindo com
as demais empresas concorrentes. Por isso, a empresa anuncia o produto
“Beba Coca-Cola” numa mensagem imperativa, direta e certeira, enquanto que
o vocábulo refrigerante diz respeito a um conjunto de produtos de uma
mesma natureza. Em certos casos, a metonimização do produto é tão forte e
cai feito uma luva que nos leva a, de fato, tomar a marca pelo produto. É
o caso, por exemplo, de “Bombril” e “Q-boa”, palavras que incluímos nas
nossas listas de compras para fazer referência a água sanitária e esponja
de aço. Mesmo quando trazemos esses produtos de marcas concorrentes,
continuamos a chamá-los como tais (Bombril e Q-boa), sem nos atentarmos
para o menor constrangimento. Repare na seguinte afirmação: “Troque seu
caminhão velho por um Volkswagen zero quilômetro”. Note que na
recomendação publicitária não há qualquer referência a caminhão novo,
porque não se deseja vender um caminhão novo qualquer, mas sim um que seja
da marca Volkswagen. Observe também que não se deseja fazer nenhuma
ligação entre o caminhão velho e a marca Volkswagen. Por isso, o texto
limita e deixa explícita a separação: de um lado tem-se “caminhão” e
“velho”, imagens mutuamente depreciadas; e de outro, “Volkswagen” e “novo”
(subentendida em zero quilômetro), imagens mutuamente valorizadas.
Sonoridade:
Os recursos sonoros são muito comuns na produção de jingles,
Uso de cores:
As cores provocam o estímulo e o consumo. Não é gratuitamente que a
campanha da cerveja Sol apresenta a coloração amarelada, capaz de fazer
nosso cérebro lembrar-se de imagens como suor e sede. A campanha da bebida
Campari trabalha a cor vermelha porque esta cor está ligada ao produto,
mas também ao erotismo, à paixão, tema muito comum em seus anúncios. Os
produtos voltados para o público infantil costumam trabalhar cores
entendidas como cores alegres: amarelo, principalmente.
Geração de
expectativas: Na geração de expectativa há o oferecimento de ganhos
que dependem exclusivamente da sorte. É um jogo que a campanha estabelece
com o receptor (leitor, ouvinte ou expectador). Mas é importante lembrar
que comprar um produto na esperança de ganhar algo implica necessariamente
na elevação do preço dessa mesma mercadoria. 


