O conjunto das palavras "a", "as", "o", "os" serve tanto para ocupar o papel de artigo definido dentro dos enunciados, quanto para a função de pronome pessoal do caso oblíquo.
É importante diferenciá-los de acordo com cada contexto, porque, em certos casos, essas palavras servirão para acompanhar e determinar gênero e número dos substantivos, enquadrando-se, portanto, como artigo, e, noutros, para substituir as referências do texto, servindo, pois, como elemento de coesão referencial, ou seja, coesão textual, o que nos indicaria que estaria na função de pronome pessoal do caso oblíquo.
Tópico 1
Como artigos, as palavras "a", "as", "o", "os" acompanham os substantivos determinando-os quanto ao gênero (feminino ou masculino) e quanto ao número (singular ou plural), respectivamente.
Repare abaixo nos exemplos hipotéticos:
I- "A casa nem foi varrida hoje." (a palavra "a" indicando que "casa" é nome do feminino e que se encontra no número singular);
II- "As casas estão à venda faz quase dois anos." (a palavra "as" indicando que "casas" é nome feminino e que se encontra no número plural);
III- "O carro desceu pela avenida e parece que a 100 por hora." (a palavra "o" indicando que "carro" é nome do masculino e que se encontra no número singular);
IV- "Os carros são todos de uma mesma montadora e estão vendidos a preços populares." (a palavra "os" indicando que "carros" é nome do masculino e que se encontra no número plural.
Tópico 2
Note que, como expliquei no primeiro parágrafo, os artigos oferecem-nos a ideia de gênero e número. Negritei propositalmente as terminações "s" nos substantivos "casas" e "carros" para que você veja a relação direta dos artigos no plural com os substantivos que devem estar também no plural.
É claro que, na língua falada, muitas vezes temos o hábito de não marcar os substantivos com o "s" que lhe é devido. Por isso é que escutamos ou pronunciamos coisas do tipo: "As casa...", "Os carro...", "Os menino...", e assim por diante.
Quanto a isso, é importante ressaltar que, embora seja algo aceito na língua falada, entendido como variante de linguagem, coloquialismo, ou oralidade, o mesmo não acontece em caso da língua escrita. No caso da escrita, precisamos seguir à risca o que determinam o dicionário e a gramática do nosso idioma.
A outra função das palavras "a", "as", "o", "os" dentro dos textos é a de pronome pessoal do caso oblíquo, quando elas assumem o papel de elemento de coesão referencial, servindo para substituir determinadas referências já citadas.
Veja o exemplo a partir da leitura deste trecho tirado de um poema de Vinícius de Moraes:
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.
(Vinícius de Moraes, "Poema dos olhos da amada", in http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/poema-dos-olhos-da-amada)
Na estrofe do poema de Vinícius de Moraes, a palavra "os" aparece em três situações:
1) "Que olhos os teus";
2) "Fizera-os Deus";
3) "Pois não os fizera".
No primeiro caso, a palavra "os" está na função de artigo. Já em 2 e 3, a palavra "os" é pronome pessoal do caso oblíquo.
A diferença é que, em "fizera-os", o pronome oblíquo "os" está à direita do verbo, separado dele pelo hífen. Por conta de sua posição à direita do verbo, ele é classificado como pronome enclítico, pois será ênclise sempre que o pronome se apresentar nessa posição posposta em relação ao verbo, ou seja, depois do dele.
No caso de "os fizera", pelo fato do pronome "os" estar à esquerda do verbo, numa situação anteposta ao verbo, temos pronome proclítico, porque será próclise sempre que o pronome aparecer na posição anterior em relação ao verbo. (Assista ao vídeo abaixo e compreenda um pouco mais sobre o que é Colocação Pronominal).
Nos dois casos, a palavra "os" está retomando a referência "olhos", citada no segundo verso do trecho do poema (Que olhos os teus).
Desse modo, além de "os" ser pronome pessoal do caso oblíquo, é também elemento de coesão textual. Sua utilização possibilita que não seja repetido o substantivo "olhos" nos demais versos adiante do texto.
Mas, afinal de contas, por que será que, para representar a palavra "olhos," não usamos a palavra "eles" (pronome pessoal do caso reto) no lugar de usar a palavra "os" (pronome pessoal do caso oblíquo)?
A resposta é aparentemente simples: não se pode usar pronome pessoal do caso reto (no caso, "eles") como complemento verbal. O complemento verbal é a palavra ou a expressão que utilizamos para completar o sentido dos verbos.
Portanto, como a palavra "olhos" é complemento do verbo "fizera" (que, só a título de reforço e de adiantamento de conceito, está no tempo pretérito mais que perfeito, tempo que, aliás, só utilizamos raríssimas vezes e, ainda assim, predominantemente na escrita e quase nunca na fala do dia a dia), se quisermos utilizar um pronome no lugar do substantivo "olhos", não devemos usar o pronome pessoal do caso reto. Devemos optar pelo uso do pronome pessoal do caso oblíquo.
Para você compreender um pouco melhor essa noção de complemento verbal, como o verso do poema está construído na ordem indireta (Fizera-os Deus), primeiro vamos passá-lo para a ordem direta recompondo a sua origem. Para isso, siga o esquema:
S= SUJEITO
V = VERBO
CV= COMPLEMENTO VERBAL
Ordem indireta:
Fizera-os Deus
🔻 🔻 🔻
(V) CV) (S)
Você deve lembrar que "os" está no lugar de "olhos", que na posição não pode ser substituída por "eles", que seria, no caso, "fizera eles". Essa construção seria errada, porque estaríamos usando pronome do caso reto na posição de complemento verbal.
Ordem direta:
Deus fizera os olhos.
🔻 🔻 🔻
(S) (V) (CV)
Deus fizera eles. (errado)
🔻 🔻 🔻
(S) (V) (CV)
Deus fizera-os. (correto)
🔻 🔻 🔻
(S) (V) (CV)
Mostrando assim na ordem direta talvez seja mais fácil de você compreender a função da palavra "os", diferenciando o seu uso como pronome pessoal do caso oblíquo, de seu uso como artigo.
Esse mesmo raciocínio servirá para todo o conjunto apresentado no começo deste tópico de estudo: a - as - o - os.
É o que você pode ver abaixo no poema "A palavra", de Carlos Drummond de Andrade.
A Palavra
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.
(Disponível em: https://www.pensador.com/poemas_pequenos_carlos_drummond/
O assunto deste post vai se encerrando por aqui e creio que você fixará melhor sua compreensão sobre o tema tratado nele a partir da realização das atividades propostas para este conteúdo.
Explicações sobre colocação pronominal no vídeo a seguir:
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