É sempre bom repetir que todos os textos
se organizam por gêneros específicos. E as
caricaturas, as charges e os cartuns são igualmente gêneros textuais de
linguagem visual que trabalham o humor. Mas não podem ser confundidos com sendo
uma mesma coisa, nem de um mesmo gênero, pois são textos bastante distintos,
que possuem fundamentos também diferentes quanto ao modo de serem produzidos e
quanto ao modo de serem compreendidos ou interpretados.
E para que você não
entenda esses gêneros como se fossem uma mesma coisa, seguirei abaixo com alguns
esclarecimentos.
1. Caricaturas
A
caricatura é o desenho da figura humana aplicando a ela as técnicas do exagero.
O retrato e a caricatura são desenhos que igualmente querem
representar as formas físicas das pessoas. Mas a caricatura é diferente do
retrato, porque, no retrato, o artista quer reproduzir fielmente os traços do
indivíduo, enquanto, na caricatura, o desenhista emprega uma figura de
linguagem específica, que é a hipérbole, ao ampliar para mais
ou para menos alguma desproporcionalidade que essa pessoa representada
eventualmente possuir.
Veja o desenho e compare com a foto
da pessoa representada por meio da caricatura:

Repare que no desenho que representa o cantor Fagner (foto)
algumas características estão bem salientadas decorrendo do fato de serem mesmo
desproporcionais os traços físicos que ele possui. Daí então, ao reproduzir a
imagem do cantor, o desenhista procurou ressaltar suas desproporcionalidades,
aumentando aquilo que nele já é grande (como nariz e orelhas, por exemplo) e
reduzindo ainda mais aquilo que é pequeno (como, no caso, os olhos).
Você vai perceber também que falta
sintonia entre a parte superior e a parte inferior do corpo do cantor, pois a
parte superior é exagerada para mais, já que a cabeça é bem maior que o corpo,
enquanto a parte inferior e exagerada para menos, pois o tronco e pernas, na
prática, seriam incapazes de sustentar o peso da cabeça descomunal do cantor.
Figura de linguagem comum nas caricaturas: hipérbole
Reforçando,
então, a caricatura é um texto que reproduz a figura humana, diferenciando-se
do retrato pelo fato de o artista empregar a hipérbole (figura de linguagem)
para fixar as desproporcionalidades que a pessoa retratada já possui na sua
anatomia física. O humor na caricatura decorre da dissonância (falta de
sintonia) entre as partes, ou seja, desse exagero percebido na representação da
forma física do sujeito representado.
Contudo,
trata-se de um humor puramente visual, sem nenhuma relação com questões morais,
sem nenhum juízo de valor em relação ao que é ou ao que poderia ser a pessoa
representada. No exemplo acima, Fagner está retratado por meio desses exageros porque,
no entender do desenhista, as partes que aparecem de maneira mais salientadas seriam
mesmo muito desiguais em suas formas, muito assimétricas, servindo, portanto, de base para o desenho
caricatural.
As
caricaturas que se prendem exclusivamente aos traços físicos das pessoas
representadas pelo que elas possuem de desproporcional em seu aspecto anatômico
são chamadas de “caricaturas da forma”. É um tipo de desenho que não ofende a pessoa
desenhada, sendo algo recreativo, produtor de humor, e que a pessoa representada
até poderia fixar em quadro na parede sem se sentir constrangida por ela, porque
sabe que não tem qualquer implicação com sua natureza comportamental. Sabe que
as hipérboles aplicadas ao desenho não estariam relacionadas a nenhum contexto
específico, estando atreladas somente ao fato de esta pessoa possuir traços físicos
dissonantes entre si.
Reforçando a compreensão: a caricatura tem como recurso a HIPÉRBOLE, uma figura de linguagem que faz uso de exageros para comunicar o sentido.
2. Charges
As
charges, por sua vez, são espécies de textos que se servem da caricatura para
produzir sentido. Mas, diferente do que explicamos no tópico anterior não há
necessariamente relação do caricatural com a forma física da pessoa
representada.
A
caricatura das charges é um tipo de caricatura especial que não está relacionada necessariamente ao que a pessoa é fisicamente, mas ao que
ela poderia estar escondendo internamente.
As
charges representam comportamentos, condições psicológicas, e são desenhos
caricaturais associados a contextos históricos bem específicos, envolvendo
fatos políticos ou de conhecimento comum de uma determinada sociedade,
envolvendo pessoas que sejam, ou que se tornaram reconhecidas por alguma razão.
A caricatura da forma, como apresentamos no tópico anterior, se
prende aos relevos do corpo humano (como no caso do desenho acima fazendo
referência ao cantor Fagner), enquanto a caricatura espiritual se prende ao
comportamento da pessoa humana. As charges são caricaturas contextualizadas,
que pretendem estabelecer uma crítica em relação à pessoa retratada por meio de
traços exagerados. O desenhista emprega a hipérbole (exagero para mais ou para
menos) ou qualquer outro recurso como meio de criticar algum fato relacionado
ao comportamento da pessoa retratada. Alguma decisão que ela tenha tomado,
alguma palavra proferida, algum gesto, tudo servirá como elemento para a
crítica do desenhista.
Veja na figura abaixo:
Nas
charges, o processo caricatural é construído pela mistura da imagem humana associada
a coisas ou a animais como forma de produzir o conteúdo crítico. Essa espécie
de carnavalização da forma humana ocorre porque geralmente o desenhista deseja
criticar a pessoa retratada, acusando-a de ter características psicológicas
semelhantes a desses animais ou coisas lembradas na caricatura.
É
o que ocorre no exemplo acima em que a imagem do presidente Bolsonaro estaria
fazendo alusão à imagem de um cão curvado lambendo os pés do dono, numa crítica
à alienação do governo brasileiro, colocando-se em posição de inferioridade e de obediência em
relação ao governo dos Estados Unidos.
Figura de linguagem comum nas charges: sinédoque
Figura de linguagem comum nas charges: sinédoque
Além
da hipérbole, as charges podem apresentar outras figuras de linguagem. Uma que
é muito recorrente nos textos chárgicos é a sinédoque.
Sinédoques
são figuras de linguagem do campo das metonímias
(assunto que trataremos em toda sua variedade de maneira mais especial em
outros textos mais adiante).
A sinédoque ocorrerá sempre que for feito referência apenas a uma
parte da figura representada, mas que, por essa parte, for possível
identificarmos o ser na sua totalidade. Ou seja, quando “a parte” estiver
presente no texto para fazer referência a algo total e eu conseguir, por meio
dessa parte, chegar a esse ser representado, trata-se de sinédoque.
Note que no caso das fotos acima, não é necessário ter a imagem toda para sabermos a que cada uma estaria fazendo referência. Esse tipo de comunicação é o que chamamos de sinédoque, figura de linguagem muito recorrente,
por exemplo, em textos de cinema como forma de empregar mais efeito e maior dramaticidade nas narrativas.
Veja abaixo um outro exemplo de sinédoque na tirinha de Chico Bento, personagem de Maurício de Sousa:

No diálogo entre as personagens, o humor está marcado exatamente pela falta de entendimento entre as partes, já que, enquanto a personagem da direita faz uso da linguagem figurada recorrendo a uma sinédoque ("cabeça de gado"), Chico Bento, a personagem que incorpora o garotinho do campo marcado por sua ingenuidade, atribui à fala do amigo uma compreensão literal, ao dizer: "meu pai só tem um boi, mais ele tá interinho" (sic)
Reforçando a compreensão: as charges trabalham com as figuras de linguagem com destaque para a hipérbole e para a sinédoque (uma das espécies da metonímia).
Tipo de circunstância predominante nas charges: causa
Tipo de circunstância predominante nas charges: causa
3. Cartuns
O cartum é um outro gênero
textual de linguagem predominantemente visual e, diferente das charges, o cartum
não trabalha necessariamente com a caricatura. No lugar da caricatura geralmente temos a representação
esquemática de tipos sociais, porque o homem, a mulher, a criança, o velho, o
político, e outras tantas figuras que aparecem nos cartuns, não fazem
referência a nenhuma pessoa em particular, mas a qualquer pessoa que eventualmente
possa encontrar-se nas condições retratadas pelo desenhista.
Veja o exemplo a seguir:
No quadro
acima, percebemos que os traços são simples, retratando de maneira esquemática
a figura do homem e da mulher fazendo alusão a um casal e a qualquer casal que, por ventura, esteja nessas condições. Essa representação é figurada, porque a ilha representa a solidão que envolve ambas as figuras. A inscrição SOS seria, portanto, um pedido de
socorro para salvá-los desse estado em que se encontram as personagens.
Figura de linguagem comum nos cartuns: metáfora
Você já deve ter reparado que cada um dos
gêneros textuais trabalhados neste nosso capítulo de estudo tem uma figura de
linguagem que é predominante. No caso dos cartuns, a figura de linguagem mais
recorrente é a metáfora. No quadro que aparece acima, a imagem ilha, por
exemplo, é uma metáfora de solidão e vai representar a incapacidade das pessoas
para o diálogo dentro do relacionamento.
A metáfora é um tipo de
identificação direta que fazemos entre seres de natureza diferente, criando
entre esses seres alguma correspondência. A metáfora só pode ser compreendida
dentro de contextos específicos, porque se eu digo "casa", a primeira
ideia que tenho é de uma edificação. Mas se a palavra estiver na frase "A
casa caiu.", eu posso ter em "casa" a imagem da edificação, mas
também a ideia de alguma coisa que não poderia ficar revelada, mas que, por
alguma razão, ficara à descoberta.
Não
significa dizer que os cartuns não façam uso também de sinédoques ou outra
figura de linguagem.
Abaixo temos um exemplo disso:
Note que no cartum acima as figuras retratadas não fazem referência a pessoas específicas, mas a pessoas comuns vistas no cotidiano da vida social. A sinédoque é a figura de linguagem utilizada no texto porque, diferente de nos apresentar o animal inteiro, apresenta-nos a parte desse animal que, associada a parte da figura humana, estabelece a crítica para o comportamento dos sujeitos que se encontrem nessa mesma condição.
Reforçando a compreensão: os cartuns trabalham com as figuras de linguagem com destaque para a metáfora.
Tipo de circunstância predominante nos cartuns: consequência










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