A poesia de cordel é um gênero textual, oriundo de Portugal e Espanha, com força principalmente na região Nordeste. Estados como Paraíba, Ceará, Pernambuco, entre outros, já forneceram ao país importantes cordelistas que, juntos, construíram um acervo de milhares de obras, tematizando os mais diversos assuntos, que vão desde o imaginário popular, com suas crendices, mitos e lendas, até fatos jornalísticos, políticos e históricos.
Considerado uma das formas de poesia popular, o cordel se apresenta de diferentes formas e estruturas, mas a mais comum, mesmo, praticada por uma infinidade de cordelistas, é a composição de sextilhas e septilhas, com esquemas de rima XAXAXA e XAXABBA, respectivamente, com versos "relativamente" regulares nos quais predomina a tipologia narrativa.
O esquema de rimas XAXAXA é aquele em que os versos ímpares não rimam com nenhum outro verso e os versos pares rimam entre si.
Rima é a semelhança sonora que ocorre entre as palavras sempre a partir da sílaba tônica, como no caso das palavras encanto/espanto ou na palavras educação/emoção.
Para compreender o que é rima não se pode confundir sílabas com som, porque embora palavras terminem com a mesma sílaba, a sonoridade delas não irá configurar necessariamente numa rima, como é o caso das palavras espelho/espalho. Logo, é preciso levar em consideração que a rima, com exceção das palavras oxítonas, cuja rima está estabelecida na última sílaba inteira, toma a vogal a partir da sílaba tônica até o final da palavra, como no caso dos pares espelho/conselho e espalho/frangalho.
Veja um exemplo de narrativa em cordel composto no esquema de rima sextilha (XAXAXA), na história de um dos maiores cordelistas brasileiro, o poeta paraibano Leandro Gomes de Barros.
[A] Antigamente existia
[X] Um duque velho invejoso
[A] Que nada o satisfazia
[X] Desejava
possuir
[A] Todo
objeto que via
Esse
duque era compadre
De
um pobre muito atrasado
Que
morava em sua terra
Num
rancho todo estragado
Sustentava
seus filhinhos
Na
vida de alugado.
Se
vendo o compadre pobre
Naquela
vida privada
Foi
trabalhar nos engenhos
Longe
da sua morada
Na
volta trouxe um cavalo
Que
não servia pra nada
Disse
o pobre à mulher:
‒ Como
havemos de passar?
O
cavalo é magro e velho
Não
pode mais trabalhar
Vamos
inventar um “quengo”
Pra
ver se o querem comprar.
Foi
na venda e de lá trouxe
Três
moedas de cruzado
Sem
dizer nada a ninguém
Para
não ser censurado
No
fiofó do cavalo
Foi
o dinheiro guardado
Do
fiofó do cavalo
Ele
fez um mealheiro
Saiu
dizendo: ‒ Sou rico!
Inda
mais que um fazendeiro,
Porque
possuo o cavalo
Que
só defeca dinheiro.
Quando
o duque velho soube
Que
ele tinha esse cavalo
Disse
pra velha duquesa:
‒ Amanhã
vou visitá-lo
Se
o animal for assim
Faço
o jeito de comprá-lo!
Saiu
o duque vexado
Fazendo
que não sabia,
Saiu
percorrendo as terras
Como
quem não conhecia
Foi
visitar a choupana,
Onde
o pobre residia.
Chegou
salvando o compadre
Muito
desinteressado:
‒ Compadre,
Como lhe vai?
Onde
tanto tem andado?
Há
dias que lhe vejo
Parece
está melhorado…
‒ É
muito certo compadre
Ainda
não melhorei
Porque
andava por fora
Faz
três dias que cheguei
Mas
breve farei fortuna
Com
um cavalo que comprei.
‒ Se
for assim, meu compadre
Você
está muito bem!
É
bom guardar o segredo,
Não
conte nada a ninguém.
Me
conte qual a vantagem
Que
este seu cavalo tem?
Disse
o pobre: ‒ Ele está magro
Só
o osso e o couro,
Porém
tratando-se dele
Meu
cavalo é um tesouro
Basta
dizer que defeca
Níquel,
prata, cobre e ouro!
Aí
chamou o compadre
E
saiu muito vexado,
Para
o lugar onde tinha
O
cavalo defecado
O
duque ainda encontrou
Três
moedas de cruzado.
Então
exclamou o velho:
‒ Só
pude achar essas três!
Disse
o pobre: ‒ Ontem à tarde
Ele
botou dezesseis!
Ele
já tem defecado,
Dez
mil réis mais de uma vez.
‒ Enquanto
ele está magro
Me
serve de mealheiro.
Eu
tenho tratado dele
Com
bagaço do terreiro,
Porém
depois dele gordo
Não
quem vença o dinheiro…
Disse
o velho: ‒ meu compadre
Você
não pode tratá-lo,
Se
for trabalhar com ele
É
com certeza matá-lo
O
melhor que você faz
É
vender-me este cavalo!
‒ Meu
compadre, este cavalo
Eu
posso negociar,
Só
se for por uma soma
Que
dê para eu passar
Com
toda minha família,
E
não precise trabalhar.
O
velho disse ao compadre:
‒ Assim
não é que se faz
Nossa
amizade é antiga
Desde
os tempos de seus pais
Dou-lhe
seis contos de réis
Acha
pouco, inda quer mais?
‒ Compadre,
o cavalo é seu!
Eu
nada mais lhe direi,
Ele,
por este dinheiro
Que
agora me sujeitei
Para
mim não foi vendido,
Faça
de conta que te dei!
O
velho pela ambição
Que
era descomunal,
Deu-lhe
seis contos de réis
Todo
em moeda legal
Depois
pegou no cabresto
E
foi puxando o animal.
Quando
ele chegou em casa
Foi
gritando no terreiro:
‒ Eu
sou o homem mais rico
Que
habita o mundo inteiro!
Porque
possuo um cavalo
Que
só defeca dinheiro!
Pegou
o dito cavalo
Botou
na estrebaria,
Milho,
farelo e alface
Era
o que ele comia
O
velho duque ia lá,
Dez,
doze vezes por dia…
Aí
o velho zangou-se
Começou
logo a falar:
‒ Como
é que meu compadre
Se
atreve a me enganar?
Eu
quero ver amanhã
O
que ele vai me contar.
Porém
o compadre pobre,
(Bicho
do quengo lixado)
Fez
depressa outro plano
Inda
mais bem arranjado
Esperando
o velho duque
Quando
viesse zangado…
O
pobre foi na farmácia
Comprou
uma borrachinha
Depois
mandou encher ela
Com
sangue de uma galinha
E
sempre olhando a estrada
Pré
ver se o velho vinha.
Disse
o pobre à mulher:
‒ Faça
o trabalho direito
Pegue
esta borrachinha
Amarre
em cima do peito
Para
o velho não saber,
Como
o trabalho foi feito!
Quando
o velho aparecer
Na
volta daquela estrada,
Você
começa a falar
Eu
grito: ‒ Oh mulher danada!
Quando
ele estiver bem perto,
Eu
lhe dou uma facada.
Porém
eu dou-lhe a facada
Em
cima da borrachinha
E
você fica lavada
Com
o sangue da galinha
Eu
grito: ‒ Arre danada!
Nunca
mais comes farinha!
Quando
ele vir você morta
Parte
para me prender,
Então
eu digo para ele:
‒ Eu
dou jeito ela viver,
O
remédio tenho aqui,
Faço
para o senhor ver!
‒ Eu
vou buscar a rabeca
Começo
logo a tocar
Você
então se remexa
Como
quem vai melhorar
Com
pouco diz: ‒ Estou boa
Já
posso me levantar.
Quando
findou-se a conversa
Na
mesma ocasião
O velho
ia chegando
Aí
travou-se a questão
O
pobre passou-lhe a faca,
Botou
a mulher no chão.
O
velho gritou a ele
Quando
viu a mulher morta:
‒ Esteja
preso, bandido!
E
tomou conta da porta
Disse
o pobre: ‒ Vou curá-la!
Pra
que o senhor se importa?
‒ O
senhor é um bandido
Infame
de cara dura
Todo
mundo apreciava
Esta
infeliz criatura
Depois
dela assassinada,
O
senhor diz que tem cura?
Compadre,
não admito
O
senhor dizer mais nada,
Não
é crime se matar
Sendo
a mulher malcriada
E
mesmo com dez minutos,
Eu
dou a mulher curada!
Correu
foi ver a rabeca
Começou
logo a tocar
De
repente o velho viu
A
mulher se endireitar
E
depois disse: ‒ Estou boa,
Já
posso me levantar…
O
velho ficou suspenso
De
ver a mulher curada,
Porém
como estava vendo
Ela
muito ensanguentada
Correu
ela, mas não viu,
Nem
o sinal da facada.
O
pobre entusiasmado
Disse-lhe:
‒ Já conheceu
Quando
esta rabeca estava
Na
mão de quem me vendeu,
Tinha
feito muitas curas
De
gente que já morreu!
No
lugar onde eu estiver
Não
deixo ninguém morrer,
Como
eu adquiri ela
Muita
gente quer saber
Mas
ela me está tão cara
Que
não me convém dizer.
O
velho que tinha vindo
Somente
propor questão,
Por
que o cavalo velho
Nunca
botou um tostão
Quando
viu a tal rabeca
Quase
morre de ambição.
‒ Compadre,
você desculpe
De
eu ter tratado assim
Porque
agora estou certo
Eu
mesmo fui o ruim
Porém
a sua rabeca
Só
serve bem para mim.
‒ Mas
como eu sou um homem
De
muito grande poder
O
senhor é um homem pobre
Ninguém
quer o conhecer
Perca
o amor da rabeca…
Responda
se quer vender?
‒ Porque
a minha mulher
Também
é muito estouvada
Se
eu comprar esta rabeca
Dela
não suporto nada
Se
quiser teimar comigo,
Eu
dou-lhe uma facada.
‒ Ela
se vê quase morta
Já
conhece o castigo,
Mas
eu com esta rabeca
Salvo
ela do perigo
Ela
daí por diante,
Não
quer mais teimar comigo!
Disse-lhe
o compadre pobre:
‒ O
senhor faz muito bem,
Quer
me comprar a rabeca
Não
venderei a ninguém
Custa
seis contos de réis,
Por
menos nem um vintém.
O
velho muito contente
Tornou
então repetir:
‒ A
rabeca já é minha
Eu
preciso a possuir
Ela
para mim foi dada,
Você
não soube pedir.
Pagou
a rabeca e disse:
‒ Vou
já mostrar a mulher!
A
velha zangou-se e disse:
‒ Vá
mostrar a quem quiser!
Eu
não quero ser culpada
Do
prejuízo que houver.
‒ O
senhor é mesmo um velho
Avarento
e interesseiro,
Que
já fez do seu cavalo
Que
defecava dinheiro?
‒ Meu
velho, dê-se a respeito,
Não
seja tão embusteiro.
O
velho que confiava
Na
rabeca que comprou
Disse
a ela: ‒ Cale a boca!
O
mundo agora virou
Dou-lhe
quatro punhaladas,
Já
você sabe quem sou.
Ele
findou as palavras
A
velha ficou teimando,
Disse
ele: ‒ Velha dos diabos
Você
ainda está falando?
Deu-lhe
quatro punhaladas
Ela
caiu arquejando…
O
velho muito ligeiro
Foi
buscar a rabequinha,
Ele
tocava e dizia:
‒ Acorde,
minha velhinha!
Porém
a pobre da velha,
Nunca
mais comeu farinha.
O
duque estava pensando
Que
sua mulher tornava
Ela
acabou de morrer
Porém
ele duvidava
Depois
então conheceu
Que
a rabeca não prestava.
Quando
ele ficou certo
Que
a velha tinha morrido
Boto
os joelhos no chão
E
deu tão grande gemido
Que
o povo daquela casa
Ficou
todo comovido.
Ele
dizia chorando:
‒ Esse
crime hei de vingá-lo
Seis
contos desta rabeca
Com
outros seis do cavalo
Eu
lá não mando ninguém,
Porque
pretendo matá-lo.
Mandou
chamar dois capangas:
‒ Me
façam um surrão bem feito
Façam
isto com cuidado
Quero
ele um pouco estreito
Com
uma argola bem forte,
Pra
levar este sujeito!
Quando
acabar de fazer
Mande
este bandido entrar,
Para
dentro do surrão
E
acabem de costurar
O
levem para o rochedo,
Para
sacudi-lo no mar.
Os
homens eram dispostos
Findaram
no mesmo dia,
O
pobre entrou no surrão
Pois
era o jeito que havia
Botaram
o surrão nas costas
E
saíram numa folia.
Adiante
disse um capanga:
‒ Está
muito alto o rojão,
Eu
estou muito cansado,
Botemos
isto no chão!
Vamos
tomar uma pinga,
Deixe
ficar o surrão.
‒ Está
muito bem, companheiro
Vamos
tomar a bicada!
(Assim
falou o capanga
Dizendo
pro camarada)
Seguiram
ambos pra venda
Ficando
além da estrada…
Quando
os capangas seguiram
Ele
cá ficou dizendo:
‒ Não
caso porque não quero,
Me
acho aqui padecendo…
A
moça é milionária
O
resto eu bem compreendo!
Foi
passando um boiadeiro
Quando
ele dizia assim,
O
boiadeiro pediu-lhe:
‒ Arranje
isto pra mim
Não
importa que a moça
Seja
boa ou ruim!
O
boiadeiro lhe disse:
‒ Eu
dou-lhe de mão beijada,
Todos
os meus possuídos
Vão
aqui nessa boiada…
Fica
o senhor como dono,
Pode
seguir a jornada!
Ele
condenado à morte
Não
fez questão, aceitou,
Descoseu
o tal surrão
O
boiadeiro entrou
O
pobre morto de medo
Num
minuto costurou.
O
pobre quando se viu
Livre
daquela enrascada,
Montou-se
num bom cavalo
E
tomou conta da boiada,
Saiu
por ali dizendo:
‒ A
mim não falta mais nada.
Os
capangas nada viram
Porque
fizeram ligeiro,
Pegaram
o dito surrão
Com
o pobre do boiadeiro
Voaram
de serra abaixo
Não
ficou um osso inteiro.
Fazia
dois ou três meses
Que
o pobre negociava
A
boiada que lhe deram
Cada
vez mais aumentava
Foi
ele um dia passar,
Onde
o compadre morava…
Quando
o compadre viu ele
De
susto empalideceu;
‒ Compadre,
por onde andava
Que
agora me apareceu?!
Segundo
o que me parece,
Está
mais rico do que eu…
‒ Aqueles
seus dois capangas
Voaram-me
num lugar
Eu
caí de serra abaixo
Até
na beira do mar
Aí
vi tanto dinheiro,
Quanto
pudesse apanhar!..
‒ Quando
me faltar dinheiro
Eu
prontamente vou ver.
O
que eu trouxe não é pouco,
Vai
dando pra eu viver
Junto
com a minha família,
Passar
bem até morrer.
‒ Compadre,
a sua riqueza
Diga
que fui eu quem dei!
Pra
você recompensar-me
Tudo
quanto lhe arranjei,
É
preciso que me bote
No
lugar que lhe botei!..
Disse-lhe
o pobre: ‒ Pois não,
Estou
pronto pra lhe mostrar!
Eu
junto com os capangas
Nós
mesmos vamos levar
E
o surrão de serra abaixo
Sou
eu quem quero empurrar!..
O
velho no mesmo dia
Mandou
fazer um surrão.
Depressa
meteu-se nele,
Cego
pela ambição
E
disse: ‒ Compadre eu estou
À
tua disposição.
O
pobre foi procurar
Dois
cabras de confiança
Se
fingindo satisfeito
Fazendo
a coisa bem mansa
Só
assim ele podia,
Tomar
a sua vingança.
Saíram
com este velho
Na
carreira, sem parar
Subiram
de serra acima
Até
o último lugar
Daí
voaram o surrão
Deixaram
o velho embolar…
O
velho ia pensando
De
encontrar muito dinheiro,
Porém
sucedeu com ele
Do
jeito do boiadeiro,
Que
quando chegou embaixo
Não
tinha um só osso inteiro.
Este
livrinho nos mostra
Que
a ambição nada convém
Todo
homem ambicioso
Nunca
pode viver bem,
Arriscando
o que possui
Em
cima do que já tem.
Cada
um faça por si,
Eu
também farei por mim!
É
este um dos motivos
Que
o mundo está ruim,
Porque
estamos cercados
Dos homens que pensam assim.
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